QUEM DE NÓS PODERIA?

A vida da criatura humana sobre a Terra, desde o primeiro vagido anunciador do nascimento até o derradeiro singulto no instante supremo do trespasse , sempre foi e continua a ser um “misterioso” ponto de interrogação. Debrucemo-nos à beira de um berço, opulento ou paupérrimo, e o chorinho característico que dele sobe aos nossos ouvidos apenas revela que mais um filho de Deus, e nosso irmão em espírito e humanidade, foi posto no mundo para uma existência longa ou fugaz, que tanto pode ser relativamente feliz como integralmente desditosa. Nada mais, neste particular, podemos ter como certo além destas duas alternativas. Seguem-se as inquirições da nossa natural curiosidade. Para que veio e de onde veio esse entezinho enigmático e interessante, cujo destino é uma incógnita e cujo futuro a ninguém é dado desvendar? Teria descido de regiões resplandecente, onde há júbilo perene nas almas, ou procedeu das sombras umbralinas onde o pranto se mistura com o remorso e os padecentes não entrevêem o termo de seu infortúnio? Que desígnio “estranho” e imperscrutável encaminhou para o proscênio desta vida esse rebentozinho gerado nas entranhas de uma mulher, que se sente junto dele tão eufórica e fita-o com um olhar de imenso e enternecido carinho? Qual o sábio capaz de estabelecer a identidade psíquica dessa débil criança recém-nascida ou de precisar o seu gênero de existência, se logo cedo lhe não arrebatar a “morte”? Teria vindo predestinado a uma missão nobilitante na sociedade, objetivando tornar os homens mais compreensivos e fraternos, mais dóceis aos ditames da bondade e da sabedoria? Ou será que uma força “cármica”, incoercível, projetou-a neste “vale de lágrimas”, fadada a uma existência miserável, sem rumo e sem perspectiva? Quem será, enfim, esse delicado ser, que ainda não têm consciência nem vontade e, não obstante, se exprime por meio de choro e de gritinhos quando se sente esporeado pela fome ou pela doença? Acaso estará aí em potencial um São Francisco de Assis ou um impiedoso Calígula? Um Mahatma Ghandi ou um Adolfo Hitler? Quem sabe não estará oculto no tenro arcabouço físico, como a florzinha em botão, o filho extremoso que se dará em holocausto por amor à sua mãe, ou o matricida desalmado que erguerá contra ela o braço monstruoso e assassino? Se mulher, quem garantirá não esteja em germe no reduzido indumento carnal uma Joana D’arc ou uma irmã Criese? A Donzela de Orleans encarou o supremos heroísmo feminino, salvando a sua gloriosa França, sob a inspiração das Vozes Espirituais que a colocaram à frente dos exércitos vitoriosos. Traída mais tarde e vendida por dinheiro ao inimigo implacável, foi julgada depois por um tribunal eclesiástico que ultrajava o nome de Deus e teve o seu corpo virgem imolado nas chamas vorazes da fogueira que iluminou de um clarão trágico a larga praça de Ruão. Irmã Criese, a enfermeira germânica que na segunda Grande Guerra, num campo de concentração nazista, amarrava as pernas das prisioneiras grávidas, para que morressem nas dores horrendas de um parto impossível. É o que informa o escritor Monteiro Lobato, num prefácio que ele fez para o livro do Sr. Pedro Granja, intitulado “Afinal, Quem Somos?”
Pois é, meus amigos-irmãos, ao pé do berço instala-se o “mistério”. Diante dele todos emudecem e se confundem. Prognóstico seguro sobre a trajetória do ser que desceu à arena terrestre, num corpinho modelado na forma masculina ou feminina, não lograrão fazer nem aqueles que são dotados de excepcionais dons medianímicos. Ainda que os cem olhos de Argos se transformassem num mágico telescópio, não teriam o miraculoso poder de devassar os arcanos do Porvir.
Resta-nos somente, e tão somente, amá-los profundamente e guiá-lo na direção do Bem Maior.
Abraços fraternos, deste humílimo buscador-aprendiz,
Ad
Namaste!
Por Ronaldo Adonai