A RESPONSABILIDADE DE ACEITAR AS COISAS

Da responsabilidade em aceitar as coisas
Kalama Sutta12
Certa vez, Gautama Buda visitou uma pequena vila chamada Kesa-putra, no reino de Kosala, cujos habitantes se chamavam Kalamas. Eles fizeram a seguinte pergunta ao Buda:
"Senhor, alguns anacoretas e brâmanes que passaram por nossa vila divulgaram e exaltaram suas próprias doutrinas e condenaram e desprezaram as doutrinas dos outros. Depois, passaram outros que também, por sua vez, divulgaram e exaltaram as suas doutrinas e também condenaram e desprezaram as doutrinas dos outros. Mas nós, Senhor, estamos sempre em duvida e perplexos, sem saber qual desses veneráveis expôs a verdade e qual deles mentiu."

Então o Buda respondeu: "Sim, é justa a dúvida que sentis, pois ela se originou de um assunto duvidoso. Agora prestem atenção: não vos deixeis guiar pelas palavras dos outros, nem por tradições existentes, nem por rumores. Não vos deixeis guiar pela autoridade dos textos religiosos, nem por simples lógica ou dedução, nem por aparências, nem pelo prazer da especulação sobre opiniões, nem por verossimilhanças possíveis, nem por simples impressão ou pela idéia: 'Ele nosso mestre.' Mas, Kalamas, desde que souberdes e sentirdes, por vós mesmos, que certas coisas são desfavoráveis, falsas e ruins, então renunciai a elas... e quando souberdes e sentirdes, por vós mesmos, que certas coisas são favoráveis e boas, então deveis aceitá-las e segui-las."
Respondendo aos bhikkhus (monges) disse: "Um discípulo deve examinar a questão mesmo quando o Tathagata (o próprio Buda) a propõe, pois o discípulo deve estar inteiramente convencido do valor real do seu ensinamento. Não acreditem no que o mestre diz simplesmente por respeito à personalidade dele." (Anguttara-Nikaya III, 65.)

Asoka, imperador da Índia no III século a C., seguindo o nobre exemplo de tolerância e compreensão de Gautama Buda, honrou e sustentou todas as religiões do seu vasto império. Hoje ainda é legível a inscrição original de um de seus editos gravados na rocha: "Não devemos honrar somente nossa religião, condenando as outras; devemos acima de tudo respeitar todas as crenças, pois sempre há algo a ser apreciado por esta ou aquela razão. Agindo desta forma, glorificamos nossa própria crença e prestamos serviço as demais. De outro modo, prejudicamos a nossa própria religião e fazemos mal à dos outros. Por conseguinte, que todos escutem e estejam dispostos a não se fecharem às doutrinas professadas pelos demais."
Esse espírito de mútua compreensão deveria ser aplicado não somente em matéria de doutrina religiosa, mas também em assuntos nacionais, políticos, sociais e econômicos.
O Budismo se apresenta sob a forma e um sistema psicológico, moral e filosófico baseado na raiz dos fatos, que podem ser testados e verificados pela experiência pessoal, pois é racional e pratico, isento de doutrinas esotéricas (ocultas).
O espírito de tolerância e compreensão foi sempre um dos ideais da cultura e civilização budista. A seu crédito deve ser dito que, durante um período pacífico de 2500 anos, nenhuma gota de sangue foi derramada em nome do Budismo e nenhuma conversão jamais foi feita quer pela força, ou por qualquer outro método de repressão.
 
Do livro Budismo - Psicologia do autoconhecimento                   Referências  bibliográficas
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O VERDADEIRO VALOR

Reconhecendo o verdadeiro valor

Um rio separava dois reinos, os agricultores o usavam para regar seus campos, porém um ano sobreveio uma seca e a água não chegou para todos. Primeiro brigaram uns com os outros, e logo seus reis enviaram exércitos para proteger os respectivos súditos. A guerra era eminente. O Buda, então encaminhou-se à fronteira onde acampavam os dois exércitos.
"Dizei-me, falou, dirigindo-se aos dois reis - que vale mais: a água do rio ou o sangue de vossos povos?"
"Não há dúvida", contestaram os reis - "que o sangue destes homens vale mais do que a água do rio".
"Oh, reis insensatos" - disse o Buda - "derramar o mais precioso para obter aquilo que vale muito menos! se empreendeis esta batalha, derramareis o sangue de vossa gente e não tereis aumentado o caudal do rio em uma só gota".
Os reis envergonhados, resolveram pôr-se de acordo de maneira pacífica e repartir a água. Pouco depois chegaram as chuvas e houve irrigação para todos.
Extraído do livro "Buda" de Jorge Luiz Borges, Editora Bertrand Brasil
(o título foi criado pelo autor do site para melhor indexação)

O BUDA SILENCIOSO (GENEROSIDADE)

O Buda Silencioso
[Generosidade]
Era uma vez, existia um homem muito rico morando em Benares, na Índia Setentrional. Quando seu pai morreu, ele herdou até mais riqueza.
Ele pensou, "Por que eu deveria usar este tesouro somente para mim?
Permitirei que meus semelhantes também se beneficiem desta riqueza."
Assim ele construiu salões de jantar nos quatro portões da cidade - norte, leste, sul e oeste. Nestes salões de jantar ele deu comida livremente a todos que quiseram, e ficou famoso por sua generosidade. Também ficou conhecido que ele e seus seguidores eram praticantes dos Cinco Passos de Treinamento.
Naqueles dias, havia um Buda Silencioso meditando na floresta próxima de Benares. Ele era chamado Buda porque era iluminado, isso significava que ele não mais se sentia a ele mesmo, o chamado 'eu’, como sendo de qualquer forma diferente de tudo da vida vivida propriamente. Assim ele podia experimentar a vida como realmente é, em cada presente momento.
Sendo alguém com toda a vida, ele era cheio de compaixão e complacência com a infelicidade de todos os seres. Então desejou instruir-se e ajudá-los a serem iluminados da mesma maneira que ele era. Mas o tempo de nosso conto era na maioria das vezes desafortunado, um tempo muito triste. Era um tempo no qual ninguém estava disposto a entender a Verdade, e sentir a vida como realmente é, e desde então este Buda soube disso, e era por isso que ele era Silencioso.
Enquanto meditava na floresta, o Buda entrou estado mental muito elevado, sua concentração era tão grande que permaneceu imóvel por sete dias e noites, sem comer ou beber.
Quando retornou ao estado normal, ele estava em risco de morrer de fome, no momento habitual do dia, ele foi buscar comida na mansão do homem rico de Benares.
Quando o homem rico acabou de se sentar para almoçar, ele viu o Buda Silencioso que vinha com sua tigela, ergueu-se de sua cadeira respeitosamente e ordenou ao seu empregado para oferecer comida a ele.
Enquanto isso, Mara, o deus da morte, estava assistindo, Mara é aquele que é cheio de cobiça para ter o poder sobre todos os seres, ele tem este poder por causa do temor da morte.
Desde que, um Buda viva plenamente a vida em cada momento, ele não tem nenhum desejo de vida futura, e nenhum medo da morte. Então, já que Mara não tinha nenhum poder sobre o Buda Silencioso, desejou destruí-lo. Quando viu que ele estava prestes a morrer de fome, soube que teria uma boa chance de ter sucesso.
Antes de o empregado poder colocar a comida na tigela do Buda Silencioso, Mara criou um poço profundo de carvão em chamas, ardentes e vermelhos entre eles. Parecia com a entrada para o inferno.
Quando viu isto, o empregado temeu pela morte e correu de volta para seu patrão. O homem rico perguntou a ele por que ele retornou sem dar a comida. Ele respondeu: - "Meu senhor, existe um enorme e profundo poço quente de carvões vermelhos em chamas justo na frente do Buda Silencioso."
O homem rico pensou, "Este homem deve estar vendo coisas!" Então enviou outro empregado com a comida, e este também retornou assustado com o mesmo poço de carvões ardentes. Vários empregados foram mandados, mas todos retornaram assustados com a morte.
Então pensou o patrão, "Não há dúvidas de que Mara, deus da morte, pode tentar evitar meu saudável ato de oferecer comida ao Buda Silencioso! Porque ações saudáveis são o início do caminho para o esclarecimento, assim, Mara deseja me parar a qualquer custo. Mas ele não entende minha confiança no Buda Silencioso e minha determinação em ofertar."
Assim ele próprio levou a comida para o Buda silencioso. Ele mesmo viu as chamas que subiam do poço ardente. Então olhou para cima e viu o terrível deus da morte, flutuando acima no céu. Ele perguntou, "Quem é o senhor.?" Mara respondeu, “eu sou o deus da morte!"
"O senhor criou este poço de fogo?" Perguntou o homem. "Eu criei," disse o deus. "Por que o senhor fez isso?"
"Para afastar você de dar comida, e deste modo causar a morte do Buda Silencioso! Também para evitar a sua ação saudável de ajudar você no caminho do esclarecimento, assim você permanecerá em meu poder!"
O homem rico de Benares disse, "Oh Mara, deus da morte, demônio, você não pode matar o Buda Silencioso e você não pode impedir minha ação saudável de doar! Vamos ver qual determinação é mais forte!"
Então ele olhou de um lado para outro do poço furioso de fogo, e disse para o tranqüilo e gentil Iluminado, "Oh Buda Silencioso, faça com que a Luz da Verdade continue a brilhar como um exemplo para nós. Aceite este presente de vida!"
Assim dizendo, ele esqueceu completamente de si mesmo, e naquele instante não existia nenhum medo da morte. Assim, ele andou no poço em chamas, ele sentiu-se sendo erguido por uma formosa flor fresca de lótus. O pólen de desta flor milagrosa estendeu-se no ar, e o cobriu com sua brilhante cor de ouro. Em pé no coração da flor de lótus, o homem despejou a comida na tigela do Buda Silencioso. Mara, deus da morte, estava derrotado!

Em agradecimento a este presente maravilhoso, a Buda silencioso levantou suas mãos em bênção. O homem rico curvado em homenagem, juntou suas mãos acima de sua cabeça. Então o Buda Silencioso partiu de Benares, e foi para as florestas do Himalaia.
Ainda em pé na maravilhosa flor de lótus, brilhando com cor de ouro, o patrão generoso ensinou a seus seguidores. Ele disse a eles que a prática dos Cinco Passos de Treinamento é necessária para purificar a mente.
Ele disse a eles que aquele que tem mente pura, existe grande mérito dando esmola - isso é verdadeiramente o presente da vida!
Quando ele terminou o ensinamento, o poço ardente e a encantadora e fresca flor de lótus desapareceram completamente.
A moral é: Não tenhas nenhum medo de fazer ações benevolentes.


A tradução deste texto é uma preciosa colaboração de
Moacir Correias - e-mail orebeldedesp@bol.com.br  
Com ilustração de Sandro Neto Ribeiro contato@maisbelashistoriasbudistas.com
Referências  bibliográficas

PODER E VAIDADE/MOMENTO ESPÍRITA

Fala-se muito das misérias humanas. Fala-se, sobremaneira, da miséria econômica.

Mas, ao lado das misérias materiais há outras de maior gravidade, que são as misérias morais.


A vaidade é uma delas. Mistura-se a todas as ações humanas e mancha os pensamentos mais delicados. Penetra o coração e o cérebro.


Planta má, a vaidade abafa a bondade. Todas as qualidades são aniquiladas por seu veneno.


Faz com que os homens se esqueçam de Deus, que se constitui em socorro apenas implorado nos momentos de aflição, e jamais o Amigo convidado ao banquete da alegria.


A vaidade, por si só, se constitui em obstáculo ao progresso moral dos homens, mas quando está de mãos dadas com o poder, torna-se nefasta.


Nos tempos em que as estradas poeirentas da Galileia ainda eram marcadas pelas sandálias humildes do Sublime Galileu, um ensinamento singular ficou impresso na História, através de um diálogo do Cristo com um senador romano.


Jesus falou-lhe de humildade mas, aquele homem investido dos poderes e glórias transitórios, deixou-se arrebatar por uma onda de orgulho e questionava-se mentalmente:


Humildade? Que credenciais apresentava o profeta para lhe falar assim, a ele, senador do Império Romano, revestido de todos os poderes?


Lembrou a cidade dos Césares, coberta de triunfos e glórias, cujos monumentos acreditava, naquele momento, fossem imortais.


Jesus, conhecedor das Leis eternas e imutáveis que regem a vida, percebendo seus pensamentos, respondeu com serenidade e firmeza:


Todos os poderes do teu império são bem fracos e todas as suas riquezas bem miseráveis...


As magnificências dos Césares são ilusões efêmeras de um dia, porque todos os sábios, como todos os guerreiros, são chamados no momento oportuno aos tribunais da justiça de Meu Pai que está no Céu.


Um dia, deixarão de existir suas águias poderosas sob um punhado de cinzas misérrimas. Suas ciências se transformarão ao sopro dos esforços de outros trabalhadores mais dignos do progresso.


Suas leis injustas serão tragadas no abismo tenebroso desses séculos de impiedade, porque só uma Lei existe e sobreviverá aos escombros da inquietação do homem: A Lei do amor, instituída por Meu Pai, desde o princípio da Criação...


Nesses ditos de Jesus, há um singular ensinamento: a transitoriedade das ostentações humanas construídas sob os impositivos da vaidade.


E Jesus tinha razão. Dois milênios após, pouca coisa restou daquele Império tido como imortal. Restam hoje apenas algumas ruínas que o tempo se encarregará de extinguir.


Todavia, o tempo não logrará destruir os ensinamentos grandiosos legados à Humanidade pelos cidadãos romanos que se dedicaram a construir patrimônios imperecíveis, não sujeitos às leis da matéria.


* * *


Deus, antes de colocar a Humanidade sobre a face da Terra a enfeitou de belezas naturais, revestiu-a de todos os elementos e recursos necessários ao nosso bem-estar.


Para iluminar o dia, Ele nos deu o Sol, radiação gloriosa. E para clarear as noites salpicou-as de estrelas, como se fossem flores de ouro.


E nós, o que temos para ofertar a Deus, senão o nosso coração?


Mas, longe de enfeitá-lo com alegrias, virtudes e esperanças e permitir que Deus o penetre, só o fazemos quando o luto, as amarguras e decepções nos visitam e nos ferem.


Deixemos a vaidade de lado e ofertemos o nosso coração livre de dores.


Ofereçamo-lo a Deus como homens, de pé, e não como escravos, de joelhos. Lembremo-nos de Deus também nas horas de alegria e felicidade.


Redação do Momento Espírita com base no cap. V,

pt.1, do livro Há 2000 anos, pelo Espírito Emmanuel,
psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. Feb.
Disponível no CD Momento Espírita, v. 2, ed. Fep.
Em 18.01.2010.

VOCABULÁRIO PARA NETOS/Do Livro - O homem que veio da sombra de Luiz Gonzaga Pinheiro.

Estava no computador, após ter visitado meus netos, Luiza, Letícia e Luan, e haver ensinado um pouco do dever de casa à primeira, quando me veio à cabeça a idéia de fazer um pequeno dicionário para que eles entendesseem mais profundamente, sem a formalidade das regras gramaticais ou amarras filosóficas, o significado de algumas palavras importantes na vida de qualquer pessoa.

Quem sabe um dia quando forem adolescentes e tiverem oportunidade de ler o que eu escrevi, procurem raciocinar sobre as palavras lá contidas, e amando-as, as deixem entrar e morar em seus corações.

Engraçado é que este exercício me levou a uma séria reflexão sobre a pobreza das palavras, notadamente quando queremos expressar nossos sentimentos.

O que sentimos é imensamente mais belo e rico, de mais profundidade do que aquilo que conseguimos grafar.

Parece que quanto mais simples somos em nossa comunicação, mas nos fazemos entender e mais tocamos a corda do sentimento de quem nos lê ou escuta.

Foi por causa dessa reflexão sobre a simplicidade das palavras em nossa comunicação, que introduzi o texto abaixo neste livro, convidando os leitores para que também meditem nas palavras que utilizam, principalmente no relacionamento com quem ama.

Meu guia espiritual, Francisco, me advertiu de que trataríamos de um drama muito sofrido. Que começasse pela ternura. Portanto, o texto é também uma tentativa de preparar o leitor para as dores que serão narradas.

O texto a seguir, foi retirado do livro "O homem que veio da sombra".

Adeus: é quando o coração que parte deixa a metade com quem fica.

Amigo: é alguém que fica para ajudar quando todo mundo se afasta.

Amor ao próximo: é quando o estranho passa a ser o amigo que ainda não abraçamos.

Caridade: é quando a gente está com fome, só tem uma bolacha e reparte.

Carinho: é quando a gente não encontra nenhuma palavra para expressar o que sente e fala com as mãos, colocando o afago em cada dedo.

Ciúme: é quando o coração fica apertado porque não confia em si mesmo.

Cordialidade: é quando amamos muito uma pessoa e tratamos todo mundo da maneira que a tratamos.

Doutrinação: é quando a gente conversa com o Espírito colocando o coração em cada palavra.

Entendimento: é quando um velhinho caminha devagar na nossa frente e a gente estando apressado não reclama.

Evangelho: é um livro que só se lê bem com o coração.

Evolução: é quando a gente está lá na frente e sente vontade de buscar quem ficou para trás.

Fé: é quando a gente diz que vai escalar um Everest e o coração já o considera feito.

Filhos: é quando Deus entrega uma jóia em nossa mão e recomenda cuidá-la.

Fome: é quando o estômago manda um pedido para a boca e ela silencia.

Inimizade: é quando a gente empurra a linha do afeto para bem distante.

Inveja: é quando a gente ainda não descobriu que pode ser mais e melhor do que o outro.

Lágrima: é quando o coração pede aos olhos que falem por ele.

Lealdade: é quando a gente prefere morrer que trair a quem ama.

Mágoa: é um espinho que a gente coloca no coração e se esquece de retirar.

Maldade: é quando arrancamos as asas do anjo que deveríamos ser.

Mediunidade com Jesus: é quando a gente serve de instrumento em uma comunicação mediúnica e a música tocada parece um noturno de Chopin.

Morte: quer dizer viagem, transferência ou, qualquer coisa, com cheiro de eternidade.

Netos: é quando Deus tem pena dos avós e manda anjos para alegrá-los.

Obsessor: é quando o Espírito adoece, manda embora a compaixão e convida a vingança para morar com ele.

Ódio: é quando plantamos trigo o ano todo e estando os pendões maduros a gente queima tudo em um dia.

Orgulho: é quando a gente é uma formiga e quer convencer os outros de que é um elefante.

Paz: é o prêmio de quem cumpre honestamente o dever.

Perdão: é uma alegria que a gente se dá e que pensava que jamais a teria.

Perfume: é quando mesmo de olhos fechados a gente reconhece quem no faz feliz.

Pessimismo: é quando a gente perde a capacidade de ver em cores.

Preguiça: é quando entra vírus na coragem e ela adoece.

Raiva: é quando colocamos uma muralha no caminho da paz.

Reencarnação: é quando a gente volta para o corpo, esquecido do que fez, para se lembrar do que ainda não fez.

Saudade: é estando longe, sentir vontade de voar, e estando perto, querer parar o tempo.

Sexo: é quando a gente ama tanto que tem vontade de morar dentro do outro.

Simplicidade: é o comportamento de quem começa a ser sábio.

Sinceridade: é quando nos expressamos como se o outro estivesse do outro lado do espelho.

Solidão: é quando estamos cercado por pessoas, mas o coração não vê ninguém por perto.

Supérfluo: é quando a nossa sede precisa de um gole de água e a gente pede um rio inteiro.

Ternura: é quando alguém nos olha e os olhos brilham como duas estrelas.

Vaidade: é quando a gente abdica da nossa essência por outra, geralmente pior.

Do Livro - O homem que veio da sombra de Luiz Gonzaga Pinheiro.

DOIS ANDARES ABAIXO DO MEU...


Eu nunca tinha ouvido falar dela.
Vivo neste edifício de 70 apartamentos há alguns anos.
A maioria dos moradores só encontro na reunião de condomínio.
Há o velho que toma sol pela manhã e que me cumprimenta sorridente porque lá em casa a gente se dá tchau na janela quando alguém sai.
Ele acha curiosíssimo e acompanha o ritual enternecido.
Há as mulheres que passeiam com os cachorros, e as que fiscalizam o crescimento das roseiras do jardim.
Existe a vizinha que sempre tenta me vender produtos de beleza.
E o Pedrão, um aumentativo irônico para um cachorro tão pequeno, tão desmilinguido e cego pela idade, que sobe e desce o elevador comigo, protegendo com olhos erráticos um dono que é quase um gigante.
Há o vizinho de passo marcial que não cumprimenta ninguém.
E ela, que morava lá havia uma eternidade, mas a quem eu nunca vira.

Numa tarde vêm o chaveiro, os bombeiros e a polícia. Arrombam a porta do apartamento.
E somos todos lançados para dentro de uma paisagem muito semelhante à nossa, mas que era dela.
As histórias de sua vida me alcançam aos farrapos.
Aos 82 anos ela vivia só.
Tinha sido médica, com consultório no centro de São Paulo. Era uma mulher independente, que veio do interior para vencer na cidade grande quando as mulheres de sua geração apenas recolhiam os passos até a casa do marido. Viajou o mundo, falava várias línguas, expressas nos livros espalhados pela casa.
Não sei de seus amores, ninguém ali sabe.
De repente, ela descobriu-se só.
Não queria morrer, só não sabia como seguir vivendo. Resistiu viva – morrendo.

Há dois anos ela estacionou sua Brasília vermelha meticulosamente limpa e bem conservada numa vaga tamanho G. E nunca mais a tirou de lá.
Poderia ter sido um sinal, mas um sinal só se torna um sinal se for decodificado.
Este gerou apenas uma multa do condomínio.
O carro deveria estar numa vaga M. Talvez P. Há pouco mais de um ano ela deixou de pagar a conta do condomínio. O acúmulo da dívida virou um processo judicial e uma primeira audiência a qual ela não compareceu.
Outra pista não decifrada.

A vizinha do lado percebeu que ela não mais saía de casa. Insistiu com o síndico, com o zelador, algo estava errado. Ela nem atendia mais a porta, e um cheiro novo se impregnava no corredor.
Mas a lei não escrita da cidade grande determina não perturbar a privacidade de ninguém.
Cada um é uma ilha – ou um apartamento.
Proprietário-indivíduo de seu número de metros quadrados aéreos no mundo.
Os funcionários do condomínio devem avisar pelo interfone quando vão entregar uma correspondência que precisa ser assinada porque, do contrário, muitos moradores sequer abrem a porta.
E ela era conhecida como “a doutora”, o título um abismo que ela e tantos se esforçam para cavar.
Ninguém ousou perguntar se algo diferente, algo pior, estava acontecendo com ela.

Naquela tarde a conhecida de uma associação onde ela trabalhava como voluntária veio procurá-la, preocupada com seu sumiço.
Ela então conseguiu se arrastar e sussurrar que não tinha forças para abrir a porta.
Quando a porta caiu, e os fossos foram transpostos, descobriu-se que havia dois meses ela vivia no escuro, à luz de velas primeiro, nada depois.
A energia elétrica tinha sido cortada por falta de pagamento. Há semanas ela não comia.
Já não podia andar.
A doutora estava morrendo de fome em meio a centenas de pessoas na cidade de milhões.
Em sua própria sujeira.
Num prédio de classe média de São Paulo, ela estava mais isolada que qualquer ribeirinho dos confins da Amazônia. Não queria que descobrissem que havia perdido o controle da sua vida.
E quando quis pedir ajuda, já não teve forças. Imagino quanto desespero sentia para conseguir romper as amarras de toda uma existência, se arrastar até a porta e admitir que não era mais capaz de abrir.
Foi levada ao hospital, onde agora briga para viver.

Ela morava dois andares abaixo do meu.
Quando eu soube, fiquei rememorando os últimos meses. Enquanto eu trabalhava, cozinhava, bebia vinho, tomava chimarrão, gargalhava, assistia a filmes, me emocionava com livros, me indignava com acontecimentos, conversava, namorava, sonhava, fazia planos, escrevia esta coluna e às vezes chorava, dois andares abaixo do meu, num espaço igual ao meu, uma mulher de 82 anos morria de fome nas trevas, em abissal solidão.

Enquanto eu ria, ela morria.
Enquanto eu comia, ela morria.
Enquanto eu sonhava, ela morria.
No escuro, ela morria no escuro enquanto eu abanava da janela, o velho sorria ao sol, uma vizinha tentava me vender um novo creme antirrugas e Pedrão rosnava cegamente no elevador sob o olhar terno de seu gigante.


Não consegui dormir por algumas noites porque me via arremessada ao outro lado da rua, tentando imaginar os enredos que se passavam atrás das cortinas daqueles outros 69 apartamentos.
Que vidas são aquelas, que dores se escondem, quais são os dramas que sou impotente para estancar?
Anos atrás, antes de eu morar no prédio, um homem se lançou pela janela e morreu estatelado na laje.
Como tantos o tempo todo.
Um soluço apavorante na rotina e depois o esquecimento. Como agora, nesse morrer sem sangue e sem alarde.

Numa fissura do tempo algo que não pode mais ser oculto se revela – revelando também o nosso medo.
Portas são derrubadas, cortinas rasgadas por um corpo que se lança para o nada, para nós.
E, talvez pior, por um corpo que se esconde até ser exposto pelo cheiro da decomposição ainda antes da morte, corroendo os muros de nossa privacidade protegida com tanto empenho.
Como a dela.

Depois precisamos esquecer para seguir vivendo.
Mas não consigo esquecer.
O que aconteceu com ela está acordado dentro de mim como um bicho.
Dentro de nós também há um condomínio onde portas se fecham, chaves se perdem e o suicida que nos habita se lança no vazio enquanto outros em nós se decompõem em vida pela morte dos dias que não acontecem.
Mergulho então, além dos dois que nos separavam, vários andares em mim.
E lembro-me de Mário Sá-Carneiro, escritor português: “Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto.
E hoje, quando me sinto, é com saudades de mim”.

Acredito que todos no prédio ficaram chocados, cada um à sua maneira.
Porque ninguém percebeu a tempestade logo ali.
Porque tudo se passou enquanto no avesso de cada janela tentávamos viver.
Mas também – e talvez principalmente por isso – porque a tragédia se desenrolou no mesmo cenário onde tecemos o enredo de nossos dias.
O apartamento dela é igual ao nosso.
Esta semelhança de condições e de arquitetura, de portas e de janelas, nos provoca um incômodo difícil de dissipar. Poderia ser nós a morrer de fome no escuro.
Mesmo com uma história diversa, lá no fundo cada um de nós sabe que a solidão nos espreita.
Que não estamos tão protegidos como gostaríamos.
Seria mais fácil afastar nosso horror se fosse um assassino, uma morte por ciúme, uma violência cometida por um psicopata. Isto está sempre mais longe.
Mas não.
A doutora morria logo ali por solidão.
E isto está bem perto.

Ela não viveu uma vida à toa.
Ou uma vida egoísta.
Ela apenas viveu mais tempo do que a maioria de seus amigos, que deve ter sepultado um a um.
Mais tempo que os pacientes que tantas vezes salvou, e então o consultório ficou vazio.
Ela tinha bens que poderia ter vendido quando ficou restrita a uma renda que não lhe permitia manter o padrão.
Mas não tinha mais saúde para fazer o que era preciso. Com o tempo, não conseguia mais nem caminhar até o banco para buscar o dinheiro da aposentadoria ou pagar a conta de luz ou qualquer outra.
Lentamente os fios de sua vida foram lhe escapando das mãos.
E, no fim, quando percebeu que precisava romper o pudor cimentado nela e pedir ajuda, já não era capaz de andar pela casa para abrir a porta da rua e escancarar sua miséria.
A doutora não queria morrer, só não tinha forças para viver neste mundo.

Por um tempo fiquei acordada pelas madrugadas, dormindo nas auroras, aterrorizada com as vidas desconhecidas abaixo e acima de mim, com os socorros que eu não sabia que precisava prestar, com o monstro de olhos abertos em mim.
Devagar, comecei a pensar nas minhas escolhas.
E agora tento aprender a amar melhor, para além das paredes de meus metros quadrados de mundo, mais iguais às dela do que eu e todos gostaríamos.

ELIANE BRUM
Texto Retirado do Perfil de

Andrea Nunes

DO SITE  KARDEC ON LINE